quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Flores eclipsadas



Flores eclipsadas
Os elementais iniciam seu ritual,
As folhas são agitadas pelo vento.
Os ventos lançam um sopro vital
Para soltar as flores do arvoredo.

As damas são lançadas ao longe
E amparadas por seus parceiros
Em um momento único de sorte
Apenas admirado por escolhidos.

Os Silfos rodopiam suas damas,
O arvoredo rege como maestro
E as abeis bailarinas são tantas
Que nasce um jardim suspenso.

As flores rodopiam com o vento
E o perfume delibera harmonia
Em um único ato, um momento
Que revela na vida sua maestria.

Oh beleza tão efêmera e imortal
De grandeza em mim eternizada.
Ao final da bela dança no quintal
Só se vê flores no chão eclipsadas.


Autor: Henrique B. Lobato

Nossa Belém

          

          Nossa Belém

          Os grandes rios da minha cidade
          Vem visitar as pessoas toda tarde
          E em cada morador de Belém
          As águas inquietam também
          Dentro dos olhos escuros,
          Por entre os antigos muros
          Que nos vislumbram.

          E em cada abobada arbórea
          Ficam guardadas lembranças
          De passeios, de olhares,
          De pessoas , de paisagens,
          Pois aqui se admiram cenários
          Únicos e exóticos, centenários
          A cada dia...
          Perfumes que não se identifica
          Levados pelo orvalho na chuva
          Para dentro de cada um que fica.

          Mas é preciso trocar o lixo das ruas
          Por jardins nutridos pelas senhoras.
          É preciso barrar o palavrão das bocas
          Pelos remédios naturais das barracas.
          Pois quando o rio vier para sua visita,
          Ele virá não para lavar as causadas
          Ou para atrapalhar os passantes,
          Mas sim para massagear de gotas
          A pele solar de cada belenense,
          Virá para amansar a saudade
          Do céu que cada um sente.


                    Autor: Henrique B. Lobato

Relatório impessoal



Relatório impessoal

          Em cada findar de rotina
              Me encontro
         Transfigurado
          E sem tempo de sobrevida.
          A minha fuga salina
          É festa, balada, bebida
          E uma noite não dormida
          Gastando algum trocado.
          Tive um amor outrora alado
               Que saiu.
                      Dormia sozinha
          Sempre
          E eu não chegava.
          Ela chorava e eu dormia
             Sonhos alcoolizados.
          Até que nem lembro o dia
          Em que ela me deixou de lado.

          Mas agora, a hora, namora
          Em cada fim dar derotina

          Não encontro

           Sentido               figurado

          É sempre ter sobre a vida
          A minha fuga salina.

          

Autor: Henrique B. Lobato

Coreto das palavras




Coreto das palavras

Vou escrever enquanto fiam
Os raios de sol na luz do dia;
Escrever enquanto destinam
Estas águas confusas da vida.

A minha alegria é incompleta,
É serena(ta), treva abandonada
Nas noites estreladas de sexta,
Dia que visito sempre a tua casa.

Empresta-me algumas palavras,
Pois não tenho pose do silêncio
Que sabe provocar as tuas notas,
A tua dança, a festa aqui dentro.

Meu interior às vezes vem e diz:
Poemaevento de coração contrito,
Escrito em letras brancas de giz
Nas margens do poeta, do espírito.


Autor: Henrique B. Lobato

~Ca da pa la vra~



~Ca da pa la vra~

Oração cantada para a serenidade
De um buscador que hoje caminha.
Uma preciosa joia de áurea idade
Para um coração nobre se destina.

Agora o tempo esconde os segredos
Dentro da caixa no vazio do mundo.
E no interior destorcem-se os medos
Do descomunal tormento no futuro.

Ele tentou livrar-se de toda centelha
Deste mundo onde reina a loucura.
Pois só herdará sua tão distinta joia
O buscador vivente de nobre candura.

Nos seus ombros caem duras provas,
Dificuldades impedem o seu avanço.
Enquanto supera todas as mazelas
Ele conquista o merecido descanso.

O buscador enfim a descobre, nova
E bela, a joia que lhe fora prometida:
As nuvens lhe esperando em sua cova
E cada palavra de amor que foi vivida.


Autor: Henrique B. Lobato

Quins zé minutos de fama



Quins zé minutos de fama

Quis zé minutos de fama
Para poder
       Fingir que ama.
Quinze minutos de fama
            Para poder
                     Filmar. Quem ama?
           Notas sem datas marcadas
                        Deixadas
por outro amanhã,
   Sem laços ou traços riscados,
           Sem acordes tocados        por nós.
       A minha marca registrada
                      Foi deleitada
                        Foi deletada             Sem dó
                                                               Sem mim

                                                               Sem nós.        


Autor: Henrique B. Lobato 

Frater per Frater





Frater per Frater

Glaucos ventos florestais sussurram
Antiga lenda há muito já esquecida.
Em festim os deuses áureos cantam
Nesta data hoje dita comemorativa.

Leitores de altivos mistérios estelares,
Filhos da magistral mãe estelamares,
Nos hoje caminhamos sem símbolos,
Sem estandartes, bandeiras ou ídolos

Polindo este coração humilde e contrito
Permite-se o ser(vir) de cada um de nós.
Buscando as virtudes do nobre espírito
Conquista-se a luz e desatam-se os nós.

Translucido e intrépido em cada estrada
Segue o povo sereno na dierna jornada,
Luz que irradia amor trilhando o caminho
E assim descobre o nobre ser peregrino.


Autor: Henrique B. Lobato

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Ermitão



O Ermitão

No caminhar do pobre Ermitão
Com sua velha lanterna na mão,
No pesadelo da noite escura
E sem saber o que se procura.

Os passos seguem à longitude
E a vontade em ser determina
O destino de tanta inquietude
Em querer ver atrás da cortina.

O velho reflete nos seus valores
E enfrenta seus vícios, temores
Com a pouca luz que ele carrega
Para sair desta densa floresta.

Uma esperança ao mago perdido
Que confiante segue o caminho:
Se a escuridão te roubar o sentido
Lembra-te que és um peregrino!

Autor: Henrique B. Lobato

Tempos modernos



Tempos modernos

Hoje nós não brigamos.
Hoje nós somos amigos
E nos amamos.
Mas já faz tempo caminhamos
Destruidos!
Pois hoje o mundo corroi
Os nossos ossos, os nossos restos.
Pois hoje os outros corroem
As nossas almas, a nossa calma.
Tiram de nós o fundamental
Direito e sobre nós o ornamental
Defeito que foi por eles
Criado!
O passado pertence a eles,
As lembranças todas,
Felizes ou tristes,
Pertencem a eles.
O futuro pertence a eles
Os sonhos todos,
Completos ou inperfeitos,
Pertencem a eles.
A nós só resta o agora.
Esse agora tardio e breve
Lá fora.
Esse agora difícil e lúdico
Lá fora.

Autor: Henrique B. Lobato

Amor (o)posto



Amor (o)posto

Na tua altura o vento sopra e a lua
Irradia toda a boemia sobre a rua.
Não há centro de equilíbrio instável
Pois o sentido do real é confundivel.

Na tua altura o vento é mais forte
E a incenteza do tempo é inebriante.
Os deslimites hoje (de)forma cega
Baseiam tudo que o real nos nega.

Sobre um tecido de ilusão contente
Nada é seguro para se permanecer.
Essa varanda vigia a rua desforme
E tentamos voar juntos sem perceber.

Hoje os vorazes espreitam a noite
Esperando nalgum portal do abismo.
E nossa confusão é água e fonte
Para se embebedar de medo disto.

Enquanto no porão das casas velhas
Vive os exemplos de aureas eras.
Onde os amores podiam (ser)eternar
Nas lanternas dos olhos perenes.

Teve um tempo de cantar as paixões
Reacendidas pelos postes a querozene.
E na rua vagueavam os lampeões
Tal como vaga-lumes feitos gente.

Autor: Henrique B. Lobato

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Bem-te-vi



Bem-te-vi

Agora à pouco, estava na beira do rio, sentado, dois pássaros voam e gritam, festejam como cumprisses de um mesmo destino, do mesmo arvoredo.
 Um bem-te-vi desceu ao meu lado e fiquei parado, observando o pássaro e tomando cuidado para não espantá-lo. Neste pássaro vislumbrei toda a beleza da minha dúvida e era tão pequena e singela, mas ao mesmo tempo tão inebriante que não queria abandoná-la.
 A dúvida que me levava a refletir naquele canto isolado embelezava meu caminho e então comecei a entender minha indisposição para saná-la, era como uma história terrivelmente triste que mesmo lhe causando dor não se fazia questão de parar de ler, mas de seguir em frente para saber onde e como a história termina.
 Assim como, aquele pequeno bem-te-vi que me "prendia" ali parado, sem movimento e inebriado, porém não queria espantá-lo, não queria deixá-lo ir embora...
 Talvez esteja cansado de caminhar investigando a estrela sem fim e queria apenas ficar ali parado, extasiado e hipnotizado... Morando na paisagem onde o bem-te-vi fazia morada em mim.

(..)
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.
Pablo Neruda

Autor: Henrique B. Lobato

Biografia moderna



 Biografia moderna

Filha da Puta
Nasceu!
Será que sou eu?
Nem sei...

Des de pequeno
João tecia histórias
Gravadas só no vento,
Pois as suas memorias

Foram outras, roubadas.
Nada restou daquele tempo.
Só as rugas, mão calejadas
Da roça, de cachaça e trampo.

Eles querem me castrar!
Querem foder minhas idéias!
Querem bater, me torturar!
Querem roubar minhas moedas!

Eu já cansei de trabalhar!
Hoje eu pensei e nada vivi.
Eu já nem sei o que é amar!
E procurei... Amor não vi.

Filha da puta
Morreu!
Será que sou eu?
Nem sei...


Autor; Henrique B. Lobato

Obs: Este texto foi originalmente produzido para o evento "Laranja Mecânica" promovido e divulgado pelos alunos de letras do segundo semestre de 2013.

Canção do delírio


Canção do delírio

Gosto de brincar com os sons, vozes
De largar mão da pretensão do agora.
Outras horas para letras tão velozes
Que não o agora, tão breve lá fora.

O vento faz dançar as versas letras
Em corações tão distantes que sumo.
Ouço desses lábios o raro pedido:
Vamos abraçar juntos o silêncio?

Escondo-me na escuridão, oculto.
Para não limitar as livres palavras
Que escorem no vento ao ouvido
Sonorizando as raras notas sentidas.

Que fiquem guardadas bem no íntimo
De quem as escolhe para levar no bolso.
Pois o humano tempo no existir é ínfimo
E o destino que achamos conhecer é falso.

Autor: Henrique B. Lobato

Noite de prece e procissão



Noite de prece e procissão

Acendem-se pequenos pontos, Ave-Maria
Começa a andar pela rua que dormia.
E as preces passeiam pelos olhos sós
Como as estrelas passeiam em nós.

E as nuvem apagam as suas luzes,
Cobrem as estrelas, mergulham a lua
Na mesma tristeza de tantas vezes,
Das vozes velosas que choram na rua.

Não sei para onde segue este cortejo
Que recorta um pedaço do purgatório.
Estes anjos com um sonoro desejo
De levar a piedade com o oratório.

E as velas seguem às suas casas,
às janelas e às cortinas do céu.
No meu íntimo acendem centelhas
Do divino silêncio que se perdeu.

Autor: Henrique B. Lobato

Raios noturnos


Raios noturnos

Para onde vão os teus raios de sol
Quando não me iluminam à noite?
A curva das cores em teu farol
Tocam em mim sempre distante.

Mas quando cresce tua luz boreal
Teus raios curvam-se à minha volta,
E então somos fantasia sem final,
Sem temer o findar desta história.

Luz explode o céu em dois corpos
Disforme e desentendidos do medo
Que espreita o sentir de outros tempos,
Onde a nuvem chove em segredo.

Eu vejo um caminho para o futuro,
Como se a noite se fizesse branda.
Assim a pulsão maior do meu cárdio
É amar e amado ser nesta ciranda.

Esta aurora entorpece os sentidos
Que temos sobre deuses e destino.
E quando acordo pela noite no rio
O meu corpo dita o ritmo do vazio.

As ondas recuam na areia da praia
Os dedos tatuam na pele a incerteza
De um compromisso para toda vida,
E o rio leva a luz com a correnteza.

Autor: Henrique B. Lobato

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Caminho de retorno



Caminho de retorno

Agora te quero um pouco distante
Como as lendas, constelações antigas
De um infinito suave e constante
Que cabe nas histórias perdidas.

Outra vez se abrem os passos falsos
E incertos do caminho de retorno.
Mas aceito a experiência de outros
Destinos, de outras folhas de outono.                                                       

Outrora de solenes segundos, minutos
Traçados como uma nova obra de arte
De muitas cenas com conflituosos atos
Moldados com o efêmero da morte.

E assim guardar a velha lembrança
Nas pegadas das estradas percorridas,
Sem a tristeza da dor de uma criança,
Mas com a forte de lutas já vencidas.


Autor: Henrique B. Lobato

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Os motivos de um livro.



Os motivos de um livro.

Aqui não há serenas páginas
de existência ou imortalidade.
Podem namorar nestas águas
Amores, temores e saudade.

Aqui não há o delírio da verdade
Contida somente no denso vazio.
Isto não é um produto de arte.
Só o misterioso silêncio do rio.

Aqui não é local pra encontros,
A busca está noutras veredas.
A porta está além das vendas.
Na noite, morada de monstros.

Não há heróis vivos neste verso
E nem canções de uma aventura.
O som, talvez o caminho interno
Façam passagem nesta iluminura.



Autor: Henrique B. Lobato

Iluminura Solitária




   Iluminura solitária

A noite brame com o sentir solitário.
Brada com uma paixão inexorável
Elevando a vontade involuntária
De fuga, de medo e inexistência.

E cada estrela pinta um quadro só
Com iluminura para a arte da alma.
Cada átomo do meu corpo em pó
Desatina a dor que prende a calma.

As nuvens cobrem os cílios da lua.
O poste vaga-lume ilumina o nada.
O silêncio vaga lúgubre pela rua
Que sonha em não ser estrada.

É a imanência das ideias sóbrias,
Quando a noite parece solidaria,
Que faz-nos perceber as sombras
Em uma rara iluminura solitária.


Autor: Henrique B. Lobato

Não há partida




Não há partida

São poucos saltos nesta vida,
Quando ele fica sobre o muro.
Passos soltos pelas avenidas
Em que caminha o seu futuro.

A estrada sempre lhe aparecia
Para um convite inesperado.
Andar de carro nas rodovias
Não era bem do seu agrado.

Mas ele cultivava a paciência
De esperar os tempos outros,
Quando se escolher a ciência
Será colher os passos soltos.

Pois para ele não há partida,
Nas avenidas livres da vida
Não há uma única estrada,
O destino é eterna chegada.


Autor: Henrique B. Lobato

Primeiro olhar




Primeiro olhar

Cadeira vazia.
Cada lugar reservado
Não se encaixa.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Pasárgada perdida



 Disse o velho no fundo do armário, que todos os poetas vieram de Pasárgada. Se o velho estiver certo então podemos imaginar que pedaços de céu passeiam pela sala onde aqui fica a televisão, que redes balançam pelos corredores para embalar o vento das palavras. E com saudade de casa o grupo “os guardadores da palavra poética” resolveu decorar o velho armário do velho com poemas, para que todos os que ouvirem sua história sintam um pouquinho do gosto de Pasárgada e queiram se perder por estas bandas.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A página esquecida



A página esquecida

A última carta de amor sincero.
Foi escrita com curva nas letras
A tinta parecia ser um raro pedido
Por mãos distintas e meigas tecído.

O papel respirava antiga lembrança
De uma história tatuada no coração.
Os dedos ritmavam sua bela dança
Compartilhavam a mesma canção.

Passo, passo, passo e serenidade
Sem compromisso de ter resposta.
É amor entregue com a caridade
De não esperar o carteiro na porta.

Envelopes selados com saudade
E enviados com um ermo destino
De nunca sair daquela fria tarde,
De ser deixada fora do caminho.

Nem mesmo assinatura continha
Na tormentória carta terminada
Sem endereço para ser entregue,
Ficou perdida no banco da praça.


Autor: Henrique B. Lobato
Em honra ao meu amigo poeta do tormentório.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A origem da vida ou porque os livros piscam.

A origem da vida
ou
Porque os livros piscam.

 Faz muito tempo, tanto quanto o número de estrelas no céu. Os Deuses fizeram uma reunião, pois o universo estava muito chato e havia chegado a hora de criar a vida no mundo abaixo das ordens do tempo.
Teve inicio a reunião e os Deuses, vaidosos, mostravam suas ideias para a grande criação. – Vamos fazer sistemas. – Dizia o dilema. – Tem que ter filosofia! – Gritou a utopia. – Tem que ser no plano concreto... – Planejou o arquiteto. E todos discutiam sem chegar a um acordo. Mas, no canto da sala, um homem maltrapilho escutava o debate, ele tinha apenas uma mochila e uma lira, além do que carregava no coração.

As palavras dos Deuses eram todas muito dizíveis e perfeitas, por isso eles não conseguiam convencer um ao outro e tudo estava tão cansativo que o universo dormia em sono profundo. Foi quando aquele homem no canto da sala levantou-se, seguiu até próximo aos Deuses e começou a tocar, sem dizer uma palavra, ele apenas dedilhava sua bela lira...

 O silêncio nas palavras daquele homem chamou a atenção de todos os Deuses e estes aos poucos se calavam para compartilhar o silêncio daquele maltrapilho. Sentavam-se para escutar a lira e tal era a beleza da música que até o universo acordou, o sol brilhou com força, a lua mostrava sua faces, as estrelas piscavam como os olhos dos Deuses ao serem tomados pela música.

 Ao perceber que havia harmonia no ambiente, o homem simples tomou a palavra e com uma sonora suavidade falou. – Vamos criar a vida como um grande poema que, visto de frente parece prosa, visto de costa parece verso, se for lido do início parece lírico, se for lido do inverso parece épico.

 Os Deuses se maravilharam com a ideia e sem palavras para contestar deixaram o poeta criar a vida. Ao som da lira o homem começou a recitar as linhas daquele grande poema e os Deuses, o sol e a lua, as estrelas e o universo foram ficando encantados com aquela obra, tão encantados que desejaram fazer parte da história.

 Sem que ninguém percebesse o homem-contador foi guiando todos para dentro da história e naquele dia se criou a vida, todos desceram para os domínios do tempo, tudo era beleza, luz e harmonia. Até que alguém decidiu perguntar o nome do poeta.

 O poeta, constrangido, levantou-se e se escondeu dentro daquele grande poema, agora ele está exalando por toda parte. Não se sabe ao certo se ele parou de compor sua obra ou se ela cresce sozinha.

 Sabe-se apenas que é possível encontrar os rastros dele no por e no nascer do sol, nas noites estreladas de lua, na natureza e no coração puro das pessoas. Sabe-se também que é por causa dele que os livros piscam.

 Autor: Henrique B. Lobato

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Tua marca na minha roupa



        Tua marca na minha roupa

        Os teus livros piscam
        Contam segredos...
        De outros eus.

        Os barulhos teus
        Dentro de nós
        Falam de paz.

        Quem é que faz
        Ruido térmico
        No teu ouvido?

        No meu tecido
        Tem teu volume,
        Alto e vibrante,

        Tem vaga-lume
        Que voa longe,
        Leva o teu nome

        Que as vezes some
        Fica escondido,
        Nunca perdido,

        Apenas dorme
        Se tenho sede,
        Se tenho fome.

Autor: Henrique B. Lobato

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A obra por uma vida?





Ele percebeu que teria que morrer
Depois de escrever o ultimo verso.
E esse destino lhe buscava sempre
Para envolvê-lo em abraço terno.

Ele planejou a hora da sua morte.
Era preciso completar a alquimia.
Ele decidiu suicidar-se de noite
Para que a obra nascesse de dia.

Ele não vai pular de algum prédio,
Não vai cortar os próprios pulsos,
Se afogar no mar, tomar remédio,
Ele não vai se jogar de um viaduto.

Desfazendo sua própria realidade
A personalidade também morreria.
Ele apagou seu nome, a identidade,
Queimou seus videos e fotos na pia.

Ele não deixou bilhetes nem cartas,
Não deixou culpas nem memória.
Preferiu apagar todas as marcas,
Todas as datas suas na história.

Ele se desprendeu das páginas
E bem devagar foi ficando solto.
Pois o leitor recitava as cantigas
Da obra de algum autor morto.

 Autor: Henrique B. Lobato
Domini

terça-feira, 23 de julho de 2013

Serenata do amor alado



Serenata do amor alado

       Estrelas contam histórias antigas.
       Elas guiam meus passos noturnos.
       Siga o som das minhas cantigas,
       Pois as estrelas sabem quem somos.

       O som transcende o belo horizonte
       Com a esperança de ter sua resposta.
       Talvez me venha o futuro distante
       Enquanto toco com a minha flauta.

       A lua desaparece atrás do castelo
       E as catedrais badalam seus sinos.
       Mas não surge aquela que espero
       E sigo escutando o uivo dos lobos.

       Será que ela por mim caminha?
       Ou será que parou naquela cidade?
       Será que ainda segue sozinha?
       Será que sente a mesma saudade?

       Ao amanhecer renasce a esperança
       De encontrá-la em outro caminho.
       Eu encho o meu cantil de esperança
       E para o norte eu sigo sozinho.

       E toco em todas as frias noites
       A canção do nosso amor alado.
       E as estrelas brilham ao longe
       Quando penso em ter-te ao lado.

       A solidão me ataca com maldade,
       Mas sigo tranquilo as serenatas.
       Os invernos passam sem piedade
       Na avidez das longas caminhadas.

       A mulher tão amada enfim escuta
       Ao longe a cantiga deste amor alado
       A ressoar no fundo de uma gruta.
       Ela corre em direção ao seu amado.

       Mas ela não esperava no encontro
       Ver pegadas de sangue na estrada.
       Pois o guerreiro em um bravo ato
       Seguiu ferido por toda a jornada.

       Marquei meus passos com tinta rubra
       Um pouco além do muro destes olhos.
       Para que você me siga e me descubra
       Um pouco além do mundo dos sonhos.

Autor: Henrique B. Lobato