quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Bem-te-vi



Bem-te-vi

Agora à pouco, estava na beira do rio, sentado, dois pássaros voam e gritam, festejam como cumprisses de um mesmo destino, do mesmo arvoredo.
 Um bem-te-vi desceu ao meu lado e fiquei parado, observando o pássaro e tomando cuidado para não espantá-lo. Neste pássaro vislumbrei toda a beleza da minha dúvida e era tão pequena e singela, mas ao mesmo tempo tão inebriante que não queria abandoná-la.
 A dúvida que me levava a refletir naquele canto isolado embelezava meu caminho e então comecei a entender minha indisposição para saná-la, era como uma história terrivelmente triste que mesmo lhe causando dor não se fazia questão de parar de ler, mas de seguir em frente para saber onde e como a história termina.
 Assim como, aquele pequeno bem-te-vi que me "prendia" ali parado, sem movimento e inebriado, porém não queria espantá-lo, não queria deixá-lo ir embora...
 Talvez esteja cansado de caminhar investigando a estrela sem fim e queria apenas ficar ali parado, extasiado e hipnotizado... Morando na paisagem onde o bem-te-vi fazia morada em mim.

(..)
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.
Pablo Neruda

Autor: Henrique B. Lobato

Biografia moderna



 Biografia moderna

Filha da Puta
Nasceu!
Será que sou eu?
Nem sei...

Des de pequeno
João tecia histórias
Gravadas só no vento,
Pois as suas memorias

Foram outras, roubadas.
Nada restou daquele tempo.
Só as rugas, mão calejadas
Da roça, de cachaça e trampo.

Eles querem me castrar!
Querem foder minhas idéias!
Querem bater, me torturar!
Querem roubar minhas moedas!

Eu já cansei de trabalhar!
Hoje eu pensei e nada vivi.
Eu já nem sei o que é amar!
E procurei... Amor não vi.

Filha da puta
Morreu!
Será que sou eu?
Nem sei...


Autor; Henrique B. Lobato

Obs: Este texto foi originalmente produzido para o evento "Laranja Mecânica" promovido e divulgado pelos alunos de letras do segundo semestre de 2013.

Canção do delírio


Canção do delírio

Gosto de brincar com os sons, vozes
De largar mão da pretensão do agora.
Outras horas para letras tão velozes
Que não o agora, tão breve lá fora.

O vento faz dançar as versas letras
Em corações tão distantes que sumo.
Ouço desses lábios o raro pedido:
Vamos abraçar juntos o silêncio?

Escondo-me na escuridão, oculto.
Para não limitar as livres palavras
Que escorem no vento ao ouvido
Sonorizando as raras notas sentidas.

Que fiquem guardadas bem no íntimo
De quem as escolhe para levar no bolso.
Pois o humano tempo no existir é ínfimo
E o destino que achamos conhecer é falso.

Autor: Henrique B. Lobato

Noite de prece e procissão



Noite de prece e procissão

Acendem-se pequenos pontos, Ave-Maria
Começa a andar pela rua que dormia.
E as preces passeiam pelos olhos sós
Como as estrelas passeiam em nós.

E as nuvem apagam as suas luzes,
Cobrem as estrelas, mergulham a lua
Na mesma tristeza de tantas vezes,
Das vozes velosas que choram na rua.

Não sei para onde segue este cortejo
Que recorta um pedaço do purgatório.
Estes anjos com um sonoro desejo
De levar a piedade com o oratório.

E as velas seguem às suas casas,
às janelas e às cortinas do céu.
No meu íntimo acendem centelhas
Do divino silêncio que se perdeu.

Autor: Henrique B. Lobato

Raios noturnos


Raios noturnos

Para onde vão os teus raios de sol
Quando não me iluminam à noite?
A curva das cores em teu farol
Tocam em mim sempre distante.

Mas quando cresce tua luz boreal
Teus raios curvam-se à minha volta,
E então somos fantasia sem final,
Sem temer o findar desta história.

Luz explode o céu em dois corpos
Disforme e desentendidos do medo
Que espreita o sentir de outros tempos,
Onde a nuvem chove em segredo.

Eu vejo um caminho para o futuro,
Como se a noite se fizesse branda.
Assim a pulsão maior do meu cárdio
É amar e amado ser nesta ciranda.

Esta aurora entorpece os sentidos
Que temos sobre deuses e destino.
E quando acordo pela noite no rio
O meu corpo dita o ritmo do vazio.

As ondas recuam na areia da praia
Os dedos tatuam na pele a incerteza
De um compromisso para toda vida,
E o rio leva a luz com a correnteza.

Autor: Henrique B. Lobato