Bem-te-vi
Agora à pouco, estava na beira do rio, sentado, dois pássaros voam e gritam, festejam como cumprisses de um mesmo destino, do mesmo arvoredo.
Um bem-te-vi desceu ao meu lado e fiquei parado, observando o pássaro e tomando cuidado para não espantá-lo. Neste pássaro vislumbrei toda a beleza da minha dúvida e era tão pequena e singela, mas ao mesmo tempo tão inebriante que não queria abandoná-la.
A dúvida que me levava a refletir naquele canto isolado embelezava meu caminho e então comecei a entender minha indisposição para saná-la, era como uma história terrivelmente triste que mesmo lhe causando dor não se fazia questão de parar de ler, mas de seguir em frente para saber onde e como a história termina.
Assim como, aquele pequeno bem-te-vi que me "prendia" ali parado, sem movimento e inebriado, porém não queria espantá-lo, não queria deixá-lo ir embora...
Talvez esteja cansado de caminhar investigando a estrela sem fim e queria apenas ficar ali parado, extasiado e hipnotizado... Morando na paisagem onde o bem-te-vi fazia morada em mim.
(..)
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.
Pablo Neruda
Autor: Henrique B. Lobato



