terça-feira, 18 de junho de 2013

Um vaga-lume e um caracol



Um vaga-lume e um caracol

Ela começou tirando nossos sapatos.
E foi deitando-nos um por um.
Aquietando nossos corpos em seu ato
De serenata, de momento incomum.

Ela veio em seu tear de palavras
Colocando os versos em seus lugares.
Subimos e descemos as escadarias
Nessa morada misteriosa do ser.

Moinho, moinho e o dia vem chegando.
E assim ela foi fazendo de mim caracol.
Interior, interior redemoinho girando.
Sem dar nó, foi fazendo de nos girassóis.

Ao som desse hino a noite vem vindo.
E assim ela fez de mim um vaga-lume.
Negrume, negrume morada dos monstros.
Noite, noite morada dos nossos outros.

Laço na palavra. Não era noite nem dia.
Não era mais vaga-lume nem caracol.
Era apenas eu que voltava à rotina, era vida.
Mas agora existia um vaga-lume e um caracol.


                                                           Autor: Henrique B. Lobato

Paisagem de Venus



               Paisagem de Vênus

      Eu admiro a tua paisagem
      De um novo mundo, de viagem.
      O teu sol faz da minha solidão
      Uma estrangeira de passagem.

      Eu quero desaguar no teu oceano.
      Tua superfície em reflexos de luz
      Me encanta, sereia, sou humano,
      Sou navegador de mares azuis.

      Sou a ressonância do teu canto,
      Que no meu manto tanto reluz.
      E vou seguindo ao teu encontro,
      Pelas veredas em que me conduz.

      Teu firmamento distante, amante
      Me chama para a altura, aventura.
      Pois minha paixão é transbordante,
      É naufrágio de mim em tua ternura.

      É mergulho em translúcida loucura,
      Esse presente vivido intensamente.
      Pois acabou minha intensa procura
      Por um paraíso tão perto da gente.

Autor: Henrique B. Lobato

Paisagem de Maia




              Paisagem de maia

      Despertai vosso pensamento,
      Efêmero pescador de emoções!
      Livrai-vos do encantamento
      Dessa sereia, dessas canções.

      Vê esse vil e falso firmamento,
      Que não passa de uma reflexão
      Posta neste oceano tão sedento
      Pelo momento das tuas paixões.

      Esse maroceano é raro e mortal,
      Não te cobre a mente, o coração.
      O teu mergulhar seria vão, fatal,
      Iria te dilacerar com fome de cão!

      Esse paraíso é palácio de morte,
      É má sorte para o teu caminho.
      Leva teu navio agora, seja forte,
      Segue em frente. Oh peregrino.

      Estende a longa vela do destino,
      Uma ilusão te vale a eternidade?
      As estrelas te chamam, te guiam
      Em tua busca por amor e verdade.


Autor: Henrique B. Lobato

Doente de teoria




Doente de teoria

Na harmonia dos meus verbos
Eu pensava, sentia e amava.
Eu criava concertos internos
E planificado na letra deixava.

Com o coração sentia, inspirava
E com a mente criava e expirava.
Mas devo estar doente de teoria
E poeta doente não vive, não cria.

Deixei cair a mente no sol poente
Que vi nascer naquele outro dia.
Deixei levar o coração pela gente
Que senti arrancar com covardia.

Poeta doente não vê e não sente
A abstração no concreto da vida.
Poeta doente verdadeira-mente
Pensa que sente a alma partida.


Autor: Henrique B. Lobato