quinta-feira, 10 de julho de 2014

Revolução interior


Revolução interior

Hoje o jornal anuncia o fim do mundo.
Os ardores ácidos da vida cotidiana
Transmutam medo e discordância,
Mas se o mundo inteiro vier e findar
Ainda restará a resistência do amor,
Ainda existirá você e me terá dentro de si,
Ainda viverei feliz dentro de ti.
Mesmo que os Maias mandem
Outra carta para a geração futura
Que nem mesmo sabe quem é,
Onde está, o que é vão ou perene.
Mesmo que os homens alvestidos
Me digam que a vida é pura candura
Ou que as mulheres sem vestido
Digam que é errado, que é luxuria.
A resistência do amor já acontece
Pelo milagre divino da luz azul

O amor, acima de tudo, prevalece.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Cantiga alada


Cantiga alada

Vem guardar o tempo comigo.
Vem cantar nossa canção de amigo
Sem despedidas ou saudades
Que não sejam sanadas pelo amor,
O amor sincero, sem mascaras,
Sem jogar com cartas marcadas,
Sem a segurança que engessa
Um amor que deve voar livre enamorado.
O nosso amor foi feito pra pegar sereno,
Foi feito para lançar-se na maré levada,
Feito para escalar montanhas no leito,
Pegar chuva e vento pela rua molhada
E fazer voltas planetárias,
O nosso amor perfeito.
O nosso amor de amigo.

O nosso amor canção, cantado.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Uma manhã sempre nova


Uma manhã sempre nova

Sinto a vontade que evapora
A presença das pessoas.
- não vou embora agora
Só estou seguro perto
Do teu corpo.
Teu manto de girassóis
Que me trás conforto,
 Que me vê suspeito
De parecer quem ama
No nascer de tantos sóis
Sobre a tua cama.
-Vos sois a minha autora,
A tua cesta de flores
Quer dançar comigo
A música que toco na aurora
Quando os raios inundam

O nosso secreto abrigo.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede 

Amor de catedral


Amor de catedral

Guarde as cátedras aprendidas
Quando a minha palavra transborda
No instante que ela gira, delira, suspira,
Quando ela, em lembrança de si,
Para de sonhar e se enamora.
Guarde os tesouros não perdidos
Que lavramos no momento agora,
Pois só se vive o presente
Se vibrar o amor dentro e fora.
Outros tesouros são afáveis e vãos,
Eles nos abandonam...
Quando os perdemos de vista
Quardá-los é a ilusão do artista
Que não sabe fazer nascimentos.
Só os momentos são presentes do agora
E estes são sempre novos na aurora,
Eles te adotam como sua autora
Se você puder deixá-los para trás

E levá-los a dizer: Até logo mais.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Antiquário


Antiquário

As nossas fronteiras continuam
Muito além do que podemos ir.
Os movimentos antagônicos
Insistem em nos distrair ali ou lá
Onde o passado mora e o futuro
Já não chega a ser muito real.
Fizemos planos para revoluções
Tão tranquilas, tão serenas,
Mudanças sutis em nossas almas
Para abarcar todo amor que nelas,
Como cachoeira sem fim deságua.
E os tesouros que você guardava
Sempre pendiam para a nostalgia
Quando visitávamos o seu baú
Que guardava consigo um oculto

Mistério do nosso raro antiquário.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

A distância de um sorriso


A distância de um sorriso

O teu sorriso meigo me faz escansão,
Mede a febre da canção dos versos,
Teu sorriso levado sopra as flores
Do meu pequeno jardim de canteiro.
O teu sorriso afiado, teu sorriso matreiro
Que sana as minhas angustias e dores.
Mas insiste em desfazer meus símbolos,
Você me conhece só bem de perto,
Quando estamos à distância de aperto,
Distância de agarramento indiscreto
É sempre que saímos da inércia
De ser dois, e os opostos deixam
De se distrair, Nossa essência
Deixa sermos um só momento,

Deixa sermos um só sorriso.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Porta retrato


Porta retrato

Há várias janelas para o passado.
Algumas delas estão comigo,
Penduradas no meu castelo
Que ainda é o teu seguro abrigo,
Sempre que tu me fazes o leão
Para engolir toda a solidão
Que também já compartilhamos.
Mas agora somos outros heróis
Com tarefas para além do castelo,
Um é cavaleiro que navega em faróis
E trás nas costas as aventuras urbanas.
E outra é rainha que desconstrói signos
Próprios desta nossa geração imaterial.
Quando você quiser ser Eva, Ísis, Maia
E me fazer Rei talvez nas ilhas de praia
Venha no meu castelo e te convidarei
Para entrar na janela para o futuro

E colocar outra foto no porta-retrato.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Isto não é epifania



Isto não é epifania

Pássaros tantos pensamentos
Que voar longe na margem do rio
Que segue até mais distante no espaço.
Eles emanam e constroem do vazio
Um manar de idéias in sóbrias
Sobre a arte, a vida, o amor,
O poema, a poesia, a primavera,
A natureza, a monotonia, o trovador.
Não espero escrever o último
Dos versos para a minha geração
Que não entende o que é íntimo
Ou mesmo o que é público.
Os que já deixaram muitas pegadas
Exigem um inexorável pudor
Descompassado para nossa música.
Um dos pássaros come no quintal
E o outro saiu sozinho.
Hoje o rio vai navegar

Como um solitário ribeirinho.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Crepuscular



Crepuscular

 A luz que entra pela sala se espalha
E cria forma na parede ainda esverdeada,
As sombras contam estórias externas,
O sol é o grande maestro, nos rege
Mesmo que agora decline no poente
Em meio ao horizonte...
Ele rege as luzes que entram na sala
E transforma a janela num relógio
Que conta as estórias do tempo,
Ele caminha na forma de um homem velho
Seguindo uma linda borboleta
De asas negras e azuis.
Essa é a forma que a luz
Me mostra melancólica,
E essa a estória que a sombra,
Como criança, pede que eu descubra.
O sol se Poe lá fora...
A janela é um projetor desligado.
A parede é uma tela agora morta.
E eu sou como o Sol, um Rei,

Eclipsado.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Caso de amor dado ao trovador


Caso de amor dado ao trovador

Hoje perdi teu número de telefone,
Perco-me para não passar na tua rua.
Faço um poema para esquecer teu nome
Mas não basta jogar as tantas palavras
Como se elas não tivessem vontade própria.
O esquecimento é contrário a negação.
É assim porque quando tento esquecer-te
Acabo morando nas nossas lembranças
- E são tantas... As palavras... Soltas.
Eu não sou adepto do desespero
E nem mesmo do solitário suicídio.
Decidi ser o herói da minha própria história
Mesmo que seja uma trova de amor,
Uma trova de prazer e dor,
Que assim com estas
- Tantas... Palavras... Soltas

Fica difícil de me compor.

Autor: Henrique B. Lobato

Procura-se uma casa


Procura-se uma casa

Não sei onde mora minha aventura,
Caminho todos os dias atrás desta danada
Mas tudo que encontro é apenas pistas:
Pontes quebradas, casas cheias de fantasmas,
Castelos, montanhas com dragões e tantas
Assombrações que até acredito ser mesmo ela.
Mas no dia seguinte descubro que não acaba
E sigo novamente em busca da morada,
Da namorada da minha aventura.
Sei que todo mundo sempre tem a sua,
Mas a cada passo que dou sinto dois
Descompassos e até algumas dores
Próprias de quem busca uma aventura.
É até estranho pensar em ficar parado,
Quando escuto alguém gritar olho pro lado
Pensando ser ela chegando de mansinho...
Que nada! Ela nem nada! Ela nem nada
Em água desesperada, talvez em um moinho.
E de repente quando eu nem imaginava
Lá estava ela, parada nas minhas costas,
A aventura subia pelos meus pés,
Dormia na minha cama e morava

Dentro do meu coração.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Afeto com cartas marcadas


Afeto com cartas marcadas

Desfiguramos o silêncio dos passantes.
Sou culpado com o beijo desatado,
Um beijo destinado a perder-se
Pois nunca será devolvido!
Impedido pelo silêncio desfigurado
Do público sedento por livrar-se
 Do nó que lhes impõe o próprio pudor.
As vezes a moral engana a si mesma
E tenta, em vão, se sobrepor ao amor
E nem foi um beijo daqueles de sexta
Quando nos despedimos para começar
Outro amanhã, uma manhã seguinte,
Onde rege a nossa incerteza juvenil
Que não entende totalmente o vazio
Habitado pelo acaso, no nosso caso
O afeto tem cartas marcadas, datas
Escolhidas pelo dejavù para desfigurar
O silêncio de onde não habitar

O amor de almas desditas.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Sobre a tua voz.


Sobre a tua voz.

Onde estão os teus raios de sol?
Que te vestem como tecido solto
Como vida própria de um rouxinol.
Hoje decidi forjar o meu lado vazio,
É preciso tentar habitar o silêncio
Só para as tuas notas ecoarem,
Quando estou entre os fios de vento
É para os teus fios de cores falarem,
E quando nevoeiro meu sentimento
E para os teus raios de sol,

Feito rouxinol, cantarem.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Guarda-chuva largado


Guarda-chuva largado

Há um guarda-chuva largado
No meio da rua Braz de Aguiar,
Antes ele costumava ser dividido
Por um casal que seguia protegido
Da chuva tão comum nas tardes
De tantas vidas, tinham medo
De molharem-se nas ruas rudes.
Mas a vida não foi postergada!
Ainda caminham de mãos dadas,
Mão dadas à aventura.
Eles dançam na vazia estrada,
Dançam alegres na chuva!
A dor guardada com pingos de água
Foi abandonada no guarda-chuva

Deixado na rua Braz de Aguiar.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Revolta desapaixonada

Revolta desapaixonada

Não sei de onde veio esta revolta
Que lança tudo sem dar resposta,
Que invade a casa assim e vai
Entrando sem bater na porta,
 Na porta fechada,
 Mesmo quando não aporta,
Mesmo quando não há porto,
Mesmo sem trazer conforto
Mesmo se me encontrar morto.
Ou perdido vagando pela tua rua,
Procurando uma resposta
Sem pergunta que seja posta
Para fora da nossa casa,
A nossa casa sem porta, sem porto,
Sem massagem nas costas,
Pois nossas asas já estão dispostas
A buscar um coração conforto,
Um coração que não seja o seu,
Um coração que seja meu

Que seja outro.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Ventríloquo de porta


Ventríloquo de porta

Amarrei as cordas do meu coração
Na porta fechada da tua casa,
Hoje à noite vou fazer a canção
De outra janela, uma janela
Que não é a tua, nem a minha.
Será a canção feita para outra ela,
Que não é a tua, nem a minha,
Mas será para o teu esquecimento,
Para quando tu vires as tardes claras
Não te lembrares do nosso momento
De loucura serena de almas tão raras.
Mas quando você sentir medo
E vontade de mais uma fuga...

Tome cuidado com a tua porta.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede