A origem da vida
ou
Porque os livros
piscam.
Faz muito tempo,
tanto quanto o número de estrelas no céu. Os Deuses fizeram uma reunião, pois o
universo estava muito chato e havia chegado a hora de criar a vida no mundo
abaixo das ordens do tempo.
Teve inicio a reunião e os Deuses, vaidosos, mostravam suas
ideias para a grande criação. – Vamos fazer sistemas. – Dizia o dilema. – Tem que
ter filosofia! – Gritou a utopia. – Tem que ser no plano concreto... – Planejou
o arquiteto. E todos discutiam sem chegar a um acordo. Mas, no canto da sala,
um homem maltrapilho escutava o debate, ele tinha apenas uma mochila e uma
lira, além do que carregava no coração.
As palavras dos
Deuses eram todas muito dizíveis e perfeitas, por isso eles não conseguiam
convencer um ao outro e tudo estava tão cansativo que o universo dormia em sono
profundo. Foi quando aquele homem no canto da sala levantou-se, seguiu até próximo
aos Deuses e começou a tocar, sem dizer uma palavra, ele apenas dedilhava sua
bela lira...
O silêncio nas
palavras daquele homem chamou a atenção de todos os Deuses e estes aos poucos
se calavam para compartilhar o silêncio daquele maltrapilho. Sentavam-se para
escutar a lira e tal era a beleza da música que até o universo acordou, o sol
brilhou com força, a lua mostrava sua faces, as estrelas piscavam como os olhos
dos Deuses ao serem tomados pela música.
Ao perceber que havia
harmonia no ambiente, o homem simples tomou a palavra e com uma sonora
suavidade falou. – Vamos criar a vida como um grande poema que, visto de frente
parece prosa, visto de costa parece verso, se for lido do início parece lírico,
se for lido do inverso parece épico.
Os Deuses se
maravilharam com a ideia e sem palavras para contestar deixaram o poeta criar a
vida. Ao som da lira o homem começou a recitar as linhas daquele grande poema e
os Deuses, o sol e a lua, as estrelas e o universo foram ficando encantados com
aquela obra, tão encantados que desejaram fazer parte da história.
Sem que ninguém
percebesse o homem-contador foi guiando todos para dentro da história e naquele
dia se criou a vida, todos desceram para os domínios do tempo, tudo era beleza,
luz e harmonia. Até que alguém decidiu perguntar o nome do poeta.
O poeta,
constrangido, levantou-se e se escondeu dentro daquele grande poema, agora ele
está exalando por toda parte. Não se sabe ao certo se ele parou de compor sua
obra ou se ela cresce sozinha.
Sabe-se apenas que é
possível encontrar os rastros dele no por e no nascer do sol, nas noites
estreladas de lua, na natureza e no coração puro das pessoas. Sabe-se também
que é por causa dele que os livros piscam.

