quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A origem da vida ou porque os livros piscam.

A origem da vida
ou
Porque os livros piscam.

 Faz muito tempo, tanto quanto o número de estrelas no céu. Os Deuses fizeram uma reunião, pois o universo estava muito chato e havia chegado a hora de criar a vida no mundo abaixo das ordens do tempo.
Teve inicio a reunião e os Deuses, vaidosos, mostravam suas ideias para a grande criação. – Vamos fazer sistemas. – Dizia o dilema. – Tem que ter filosofia! – Gritou a utopia. – Tem que ser no plano concreto... – Planejou o arquiteto. E todos discutiam sem chegar a um acordo. Mas, no canto da sala, um homem maltrapilho escutava o debate, ele tinha apenas uma mochila e uma lira, além do que carregava no coração.

As palavras dos Deuses eram todas muito dizíveis e perfeitas, por isso eles não conseguiam convencer um ao outro e tudo estava tão cansativo que o universo dormia em sono profundo. Foi quando aquele homem no canto da sala levantou-se, seguiu até próximo aos Deuses e começou a tocar, sem dizer uma palavra, ele apenas dedilhava sua bela lira...

 O silêncio nas palavras daquele homem chamou a atenção de todos os Deuses e estes aos poucos se calavam para compartilhar o silêncio daquele maltrapilho. Sentavam-se para escutar a lira e tal era a beleza da música que até o universo acordou, o sol brilhou com força, a lua mostrava sua faces, as estrelas piscavam como os olhos dos Deuses ao serem tomados pela música.

 Ao perceber que havia harmonia no ambiente, o homem simples tomou a palavra e com uma sonora suavidade falou. – Vamos criar a vida como um grande poema que, visto de frente parece prosa, visto de costa parece verso, se for lido do início parece lírico, se for lido do inverso parece épico.

 Os Deuses se maravilharam com a ideia e sem palavras para contestar deixaram o poeta criar a vida. Ao som da lira o homem começou a recitar as linhas daquele grande poema e os Deuses, o sol e a lua, as estrelas e o universo foram ficando encantados com aquela obra, tão encantados que desejaram fazer parte da história.

 Sem que ninguém percebesse o homem-contador foi guiando todos para dentro da história e naquele dia se criou a vida, todos desceram para os domínios do tempo, tudo era beleza, luz e harmonia. Até que alguém decidiu perguntar o nome do poeta.

 O poeta, constrangido, levantou-se e se escondeu dentro daquele grande poema, agora ele está exalando por toda parte. Não se sabe ao certo se ele parou de compor sua obra ou se ela cresce sozinha.

 Sabe-se apenas que é possível encontrar os rastros dele no por e no nascer do sol, nas noites estreladas de lua, na natureza e no coração puro das pessoas. Sabe-se também que é por causa dele que os livros piscam.

 Autor: Henrique B. Lobato

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Tua marca na minha roupa



        Tua marca na minha roupa

        Os teus livros piscam
        Contam segredos...
        De outros eus.

        Os barulhos teus
        Dentro de nós
        Falam de paz.

        Quem é que faz
        Ruido térmico
        No teu ouvido?

        No meu tecido
        Tem teu volume,
        Alto e vibrante,

        Tem vaga-lume
        Que voa longe,
        Leva o teu nome

        Que as vezes some
        Fica escondido,
        Nunca perdido,

        Apenas dorme
        Se tenho sede,
        Se tenho fome.

Autor: Henrique B. Lobato

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A obra por uma vida?





Ele percebeu que teria que morrer
Depois de escrever o ultimo verso.
E esse destino lhe buscava sempre
Para envolvê-lo em abraço terno.

Ele planejou a hora da sua morte.
Era preciso completar a alquimia.
Ele decidiu suicidar-se de noite
Para que a obra nascesse de dia.

Ele não vai pular de algum prédio,
Não vai cortar os próprios pulsos,
Se afogar no mar, tomar remédio,
Ele não vai se jogar de um viaduto.

Desfazendo sua própria realidade
A personalidade também morreria.
Ele apagou seu nome, a identidade,
Queimou seus videos e fotos na pia.

Ele não deixou bilhetes nem cartas,
Não deixou culpas nem memória.
Preferiu apagar todas as marcas,
Todas as datas suas na história.

Ele se desprendeu das páginas
E bem devagar foi ficando solto.
Pois o leitor recitava as cantigas
Da obra de algum autor morto.

 Autor: Henrique B. Lobato
Domini