Ele percebeu que teria que morrer
Depois de escrever o ultimo verso.
E esse destino lhe buscava sempre
Para envolvê-lo em abraço terno.
Ele planejou a hora da sua morte.
Era preciso completar a alquimia.
Ele decidiu suicidar-se de noite
Para que a obra nascesse de dia.
Ele não vai pular de algum prédio,
Não vai cortar os próprios pulsos,
Se afogar no mar, tomar remédio,
Ele não vai se jogar de um viaduto.
Desfazendo sua própria realidade
A personalidade também morreria.
Ele apagou seu nome, a identidade,
Queimou seus videos e fotos na pia.
Ele não deixou bilhetes nem cartas,
Não deixou culpas nem memória.
Preferiu apagar todas as marcas,
Todas as datas suas na história.
Ele se desprendeu das páginas
E bem devagar foi ficando solto.
Pois o leitor recitava as cantigas
Da obra de algum autor morto.
Autor: Henrique B. Lobato
Domini

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