quinta-feira, 10 de julho de 2014

Revolução interior


Revolução interior

Hoje o jornal anuncia o fim do mundo.
Os ardores ácidos da vida cotidiana
Transmutam medo e discordância,
Mas se o mundo inteiro vier e findar
Ainda restará a resistência do amor,
Ainda existirá você e me terá dentro de si,
Ainda viverei feliz dentro de ti.
Mesmo que os Maias mandem
Outra carta para a geração futura
Que nem mesmo sabe quem é,
Onde está, o que é vão ou perene.
Mesmo que os homens alvestidos
Me digam que a vida é pura candura
Ou que as mulheres sem vestido
Digam que é errado, que é luxuria.
A resistência do amor já acontece
Pelo milagre divino da luz azul

O amor, acima de tudo, prevalece.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Cantiga alada


Cantiga alada

Vem guardar o tempo comigo.
Vem cantar nossa canção de amigo
Sem despedidas ou saudades
Que não sejam sanadas pelo amor,
O amor sincero, sem mascaras,
Sem jogar com cartas marcadas,
Sem a segurança que engessa
Um amor que deve voar livre enamorado.
O nosso amor foi feito pra pegar sereno,
Foi feito para lançar-se na maré levada,
Feito para escalar montanhas no leito,
Pegar chuva e vento pela rua molhada
E fazer voltas planetárias,
O nosso amor perfeito.
O nosso amor de amigo.

O nosso amor canção, cantado.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Uma manhã sempre nova


Uma manhã sempre nova

Sinto a vontade que evapora
A presença das pessoas.
- não vou embora agora
Só estou seguro perto
Do teu corpo.
Teu manto de girassóis
Que me trás conforto,
 Que me vê suspeito
De parecer quem ama
No nascer de tantos sóis
Sobre a tua cama.
-Vos sois a minha autora,
A tua cesta de flores
Quer dançar comigo
A música que toco na aurora
Quando os raios inundam

O nosso secreto abrigo.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede 

Amor de catedral


Amor de catedral

Guarde as cátedras aprendidas
Quando a minha palavra transborda
No instante que ela gira, delira, suspira,
Quando ela, em lembrança de si,
Para de sonhar e se enamora.
Guarde os tesouros não perdidos
Que lavramos no momento agora,
Pois só se vive o presente
Se vibrar o amor dentro e fora.
Outros tesouros são afáveis e vãos,
Eles nos abandonam...
Quando os perdemos de vista
Quardá-los é a ilusão do artista
Que não sabe fazer nascimentos.
Só os momentos são presentes do agora
E estes são sempre novos na aurora,
Eles te adotam como sua autora
Se você puder deixá-los para trás

E levá-los a dizer: Até logo mais.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Antiquário


Antiquário

As nossas fronteiras continuam
Muito além do que podemos ir.
Os movimentos antagônicos
Insistem em nos distrair ali ou lá
Onde o passado mora e o futuro
Já não chega a ser muito real.
Fizemos planos para revoluções
Tão tranquilas, tão serenas,
Mudanças sutis em nossas almas
Para abarcar todo amor que nelas,
Como cachoeira sem fim deságua.
E os tesouros que você guardava
Sempre pendiam para a nostalgia
Quando visitávamos o seu baú
Que guardava consigo um oculto

Mistério do nosso raro antiquário.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

A distância de um sorriso


A distância de um sorriso

O teu sorriso meigo me faz escansão,
Mede a febre da canção dos versos,
Teu sorriso levado sopra as flores
Do meu pequeno jardim de canteiro.
O teu sorriso afiado, teu sorriso matreiro
Que sana as minhas angustias e dores.
Mas insiste em desfazer meus símbolos,
Você me conhece só bem de perto,
Quando estamos à distância de aperto,
Distância de agarramento indiscreto
É sempre que saímos da inércia
De ser dois, e os opostos deixam
De se distrair, Nossa essência
Deixa sermos um só momento,

Deixa sermos um só sorriso.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Porta retrato


Porta retrato

Há várias janelas para o passado.
Algumas delas estão comigo,
Penduradas no meu castelo
Que ainda é o teu seguro abrigo,
Sempre que tu me fazes o leão
Para engolir toda a solidão
Que também já compartilhamos.
Mas agora somos outros heróis
Com tarefas para além do castelo,
Um é cavaleiro que navega em faróis
E trás nas costas as aventuras urbanas.
E outra é rainha que desconstrói signos
Próprios desta nossa geração imaterial.
Quando você quiser ser Eva, Ísis, Maia
E me fazer Rei talvez nas ilhas de praia
Venha no meu castelo e te convidarei
Para entrar na janela para o futuro

E colocar outra foto no porta-retrato.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Isto não é epifania



Isto não é epifania

Pássaros tantos pensamentos
Que voar longe na margem do rio
Que segue até mais distante no espaço.
Eles emanam e constroem do vazio
Um manar de idéias in sóbrias
Sobre a arte, a vida, o amor,
O poema, a poesia, a primavera,
A natureza, a monotonia, o trovador.
Não espero escrever o último
Dos versos para a minha geração
Que não entende o que é íntimo
Ou mesmo o que é público.
Os que já deixaram muitas pegadas
Exigem um inexorável pudor
Descompassado para nossa música.
Um dos pássaros come no quintal
E o outro saiu sozinho.
Hoje o rio vai navegar

Como um solitário ribeirinho.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Crepuscular



Crepuscular

 A luz que entra pela sala se espalha
E cria forma na parede ainda esverdeada,
As sombras contam estórias externas,
O sol é o grande maestro, nos rege
Mesmo que agora decline no poente
Em meio ao horizonte...
Ele rege as luzes que entram na sala
E transforma a janela num relógio
Que conta as estórias do tempo,
Ele caminha na forma de um homem velho
Seguindo uma linda borboleta
De asas negras e azuis.
Essa é a forma que a luz
Me mostra melancólica,
E essa a estória que a sombra,
Como criança, pede que eu descubra.
O sol se Poe lá fora...
A janela é um projetor desligado.
A parede é uma tela agora morta.
E eu sou como o Sol, um Rei,

Eclipsado.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Caso de amor dado ao trovador


Caso de amor dado ao trovador

Hoje perdi teu número de telefone,
Perco-me para não passar na tua rua.
Faço um poema para esquecer teu nome
Mas não basta jogar as tantas palavras
Como se elas não tivessem vontade própria.
O esquecimento é contrário a negação.
É assim porque quando tento esquecer-te
Acabo morando nas nossas lembranças
- E são tantas... As palavras... Soltas.
Eu não sou adepto do desespero
E nem mesmo do solitário suicídio.
Decidi ser o herói da minha própria história
Mesmo que seja uma trova de amor,
Uma trova de prazer e dor,
Que assim com estas
- Tantas... Palavras... Soltas

Fica difícil de me compor.

Autor: Henrique B. Lobato

Procura-se uma casa


Procura-se uma casa

Não sei onde mora minha aventura,
Caminho todos os dias atrás desta danada
Mas tudo que encontro é apenas pistas:
Pontes quebradas, casas cheias de fantasmas,
Castelos, montanhas com dragões e tantas
Assombrações que até acredito ser mesmo ela.
Mas no dia seguinte descubro que não acaba
E sigo novamente em busca da morada,
Da namorada da minha aventura.
Sei que todo mundo sempre tem a sua,
Mas a cada passo que dou sinto dois
Descompassos e até algumas dores
Próprias de quem busca uma aventura.
É até estranho pensar em ficar parado,
Quando escuto alguém gritar olho pro lado
Pensando ser ela chegando de mansinho...
Que nada! Ela nem nada! Ela nem nada
Em água desesperada, talvez em um moinho.
E de repente quando eu nem imaginava
Lá estava ela, parada nas minhas costas,
A aventura subia pelos meus pés,
Dormia na minha cama e morava

Dentro do meu coração.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Afeto com cartas marcadas


Afeto com cartas marcadas

Desfiguramos o silêncio dos passantes.
Sou culpado com o beijo desatado,
Um beijo destinado a perder-se
Pois nunca será devolvido!
Impedido pelo silêncio desfigurado
Do público sedento por livrar-se
 Do nó que lhes impõe o próprio pudor.
As vezes a moral engana a si mesma
E tenta, em vão, se sobrepor ao amor
E nem foi um beijo daqueles de sexta
Quando nos despedimos para começar
Outro amanhã, uma manhã seguinte,
Onde rege a nossa incerteza juvenil
Que não entende totalmente o vazio
Habitado pelo acaso, no nosso caso
O afeto tem cartas marcadas, datas
Escolhidas pelo dejavù para desfigurar
O silêncio de onde não habitar

O amor de almas desditas.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Sobre a tua voz.


Sobre a tua voz.

Onde estão os teus raios de sol?
Que te vestem como tecido solto
Como vida própria de um rouxinol.
Hoje decidi forjar o meu lado vazio,
É preciso tentar habitar o silêncio
Só para as tuas notas ecoarem,
Quando estou entre os fios de vento
É para os teus fios de cores falarem,
E quando nevoeiro meu sentimento
E para os teus raios de sol,

Feito rouxinol, cantarem.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Guarda-chuva largado


Guarda-chuva largado

Há um guarda-chuva largado
No meio da rua Braz de Aguiar,
Antes ele costumava ser dividido
Por um casal que seguia protegido
Da chuva tão comum nas tardes
De tantas vidas, tinham medo
De molharem-se nas ruas rudes.
Mas a vida não foi postergada!
Ainda caminham de mãos dadas,
Mão dadas à aventura.
Eles dançam na vazia estrada,
Dançam alegres na chuva!
A dor guardada com pingos de água
Foi abandonada no guarda-chuva

Deixado na rua Braz de Aguiar.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Revolta desapaixonada

Revolta desapaixonada

Não sei de onde veio esta revolta
Que lança tudo sem dar resposta,
Que invade a casa assim e vai
Entrando sem bater na porta,
 Na porta fechada,
 Mesmo quando não aporta,
Mesmo quando não há porto,
Mesmo sem trazer conforto
Mesmo se me encontrar morto.
Ou perdido vagando pela tua rua,
Procurando uma resposta
Sem pergunta que seja posta
Para fora da nossa casa,
A nossa casa sem porta, sem porto,
Sem massagem nas costas,
Pois nossas asas já estão dispostas
A buscar um coração conforto,
Um coração que não seja o seu,
Um coração que seja meu

Que seja outro.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Ventríloquo de porta


Ventríloquo de porta

Amarrei as cordas do meu coração
Na porta fechada da tua casa,
Hoje à noite vou fazer a canção
De outra janela, uma janela
Que não é a tua, nem a minha.
Será a canção feita para outra ela,
Que não é a tua, nem a minha,
Mas será para o teu esquecimento,
Para quando tu vires as tardes claras
Não te lembrares do nosso momento
De loucura serena de almas tão raras.
Mas quando você sentir medo
E vontade de mais uma fuga...

Tome cuidado com a tua porta.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Rosa Bailarina


Rosa Bailarina

Ela brinca de ser bailarina.
Ornamenta de cor sua vida
Quando anda ela faz ciranda
E roda o tempo nesta cena.

Ela tem consigo uma poesia
E música com acorde e sina
De ser tão bela e tão feminina
Como a primavera dançarina.

Quando a noite vem fazer luz
Ela solta os seus vaga-lumes
E acende estrelas lamparina
Para velar meus sonhos livres.

Ela gosta de acordar palavras
E com elas planta e encanta
Para ressoar letras sentidas
Enquanto baila, anda e ama.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Serenata para dois


Serenata para dois

Teu passo acaricia a terra,
Perfuma a luz do fim de tarde.
E arde antes que a noite
Termine por te abraçar infinita.

Escuto a melodia do vento
Ecoando dentro do teu colo,
Entre o pulsar do nosso corpo
Acima do sono e do sereno.

Há de haver um único solo,
Uma profusão de sonhos
Plantados pela luz dos olhos
Que nos ligam neste momento.

E não existe, em nós, medo
Para o amor não há neblina,
Não tem guardado o segredo
Desta união de almas desditas.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Estrela de mim


Estrela de mim

Além da palavra e da voz
Há um peregrino e uma estrela.
Estela com mapa de se perder
Por entre os caminhos de som e luz
Ela conduz os ventos, as velas
Do peregrino que segue
Esta infinita estrela cadente.

Sempre que estamos agregados
O tempo é um elemento abstrato
E deixamos de EXISTIR em dois
E passamos a SER um absoluto.
Essa é a minha esperança
Vivendo dentro do milagre.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Não conte segredos


Não conte segredos

Abstenha-se de contar segredos.
Toda palavra é em si irredutível
Aqui nesta peneira de acasos
O momento é mero combustível.

Não há quem esteja disposto
Para doar sentimento solúvel.
Assalte este pobre discurso,
De a ele a mascara renovável.

Os córregos são rios ocultos
Por rostos feitos de fino barro,
Enfeites de chumbo dos tantos
Que tragam seu belo cigarro.

Não conte estes segredos
Eles não merecem nascer
Em meio aos tantos medos
Que escolhemos para viver.

Autor: Henrique B. Lobato

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Quebrando lentes


Quebrando lentes

Lentes enganadoras enfeitam os olhos
E pior que tal sina escura, escondida
Do que é feito das vidas e dos sonhos
Consumidos após a cena desvanecida.

E talvez não haja escolhas dispostas
A se mostrarem hoje para um poeta.
Talvez o estudante tenha feito pistas
Para a rosa seguir até a sua janela.

Vou embora para longe de ontem
Esse tempo só respeita a saudade
E já não suporto que me faltem
Os sentidos para amar de verdade.

Essa é a verdadeira e maior liberdade
A estação do amor é estar enamorado
E assim escapar do horrendo cárcere
Para deixar as lentes efêmeras de lado.


Autor: Henrique B. Lobato

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Abaixo do tempo



Abaixo do tempo

Enquanto estiver dentro do vidro
Da ampulheta de grãos do tempo,
Haverá um momento aqui dentro
De olhar para um lugar distante.

Chegará dias que não fluirá
Qualquer informação por aqui.
Quando este fidalgo chegar,
O fim de algo será o porvir.

Fecharemos as portas agora,
Mas só por um breve instante.
Pois agora chegará a reforma
Do novo ser que não era antes.

E quem quiser ver permaneça
Enquanto fiam as linhas da norna,
Esta que controla a presença
Que temos na ampulheta de terra.

Autor: Henrique B. Lobato

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Wind ows



Wind ows

O vento pede uma pausa lenta,
Talvez não seja possível dejàvu
Tentar sair deste orbe violeta
Como meu olho roxo de novo.
Não que eu tenha brigado...
Tentei apenas fazer uma janela
Ou escapar desta canção violenta.
Meu coração tem um silêncio
Habitando com aluguel caro
E condições em papel e caneta.

E lá fora um distúrbio sonoro
Me mantém preso no soro.
Estou entre o silêncio e o barulho,
Não é meio termo nem nada,
É porque não tenho casa...
É porque sábado cansei
E tentei abrir uma janela
Quando o vento pediu

Uma pausa.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Canção do sertão




Canção do Sertão

Preciso decidir onde cair.
Entendo um novo amanhã.
Por que tenho que ser assim?
Sem derivar com hortelã...
Cada palavra registrada
Não é nada, não é piada,
Não é discurso, nem cantada,
Não sei fazer outra fornada.
Não sei se já é condenada
A minha perdida estrada,
Só sei que te perdi em mim. (x3)

Preciso decidir onde dormir.
Entendo um novo amanhecer.
Por que você é assim por mim?
Não sei hoje o que vou fazer,
Fazer chover até cair...
Longe de mim sem perceber,
Fazer canção sem enfraquecer,
Fazer o céu escurecer aqui. (x3)

Fazer delírio envaidecer
Por mim que quis me libertar,
Eu quis fugir sem perceber,
Correr e já não mais parar
Até chegar no teu lugar
E entender bem mais de mim.(x3)

Preciso decidir onde ficar,
Não há lugar perto daqui.
Não há parada pra pensar,
Nem pra comer e repartir.
Não há carona pra tentar
Pegar nuvem que chega lá
Ou parar e entender, fingir.
Não é culpa, nem lamento,
Não é pudor, nem sentimento.
Não é largada e nem jornada,
Não é destino, não é nada.
Não é certeza e nem parada,
Não escolhi Sertão assim. (x3)

Autor: Henrique B. Lobato


Bonjour





Bonjour

Eu queria ser também pintor
Para eternizar a tua imagem
Mas me coube ser o trovador
Que ilustrará a tua passagem.

A tua quietude em gestos ternos
Quando o vento vem te passear
Trazendo consigo outros tempos
Onde bem se conjugava o amar.

Hoje a paisagem bem te veste
No final de manhã ou de tarde
E toda inquietação esvaneceu
Pois tua luz em mim amanheceu,

Fez surgir fios de cores pelo ar
Por isso eu bem te queria pintar
Pois é pintura o desdito momento
Onde te fiz canção e sentimento.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Cidade velha


A cidade velha

As ruínas da minha cidade
Andam querendo um só desejo:
Serem traídas com um beijo
Pois partem paroutra saudade.

Elas sussurram para os passantes
Que param e escutam sua arte,
Eles que pairam sem passaportes
Para partir ao tempo da bellepoque.

Já não há lembrança fotografada
Nos olhos da praça abandonada.
A preservação só ficou no oficio

Querem construir um edifício
No lugar da casa velha, lavrada
Foi pelo beijo feita sacrificio.

Autor: Henrique B. Lobato

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Mensagem no vento



Mensagem no vento

Quero contar para o vento do norte
Que hoje vi duas perolas pela noite.
Logo que ela veio me lançar estrelas
Fez meu medo minguar dentro delas.

Quero contar para este vento do sul
Que vi a aurora em raios ouros no céu.
E a esperança irradiou pelas nuvens
Trazendo consigo a paz aos homens.

Quero cantar para o vento do oeste
Que vi o errante caminhar da sorte
E deixei-a encerrada sobre o acaso
Pois no solo da fé se firmou o passo.

E ao vento do leste eu quero cantar
Para levar a mensagem ao seu lugar.
Pois o amor em nós achou morada
E não se teme o destino, tempo, nada.

Autor: Henrique B. Lobato

Folha peregrina



Folha peregrina

Há uma folha prestes a lançar-se
Para a aventura do novo destino.
Move-se o vento e até ó universo
Em conjectura, parceria unisolo.

Ao desprender-se da árvore mãe
A pequena folha fica desprotegida
A navegar por terreno onde outras
Insistem em uma existência fatídica.

Não sabe a pequena folha confusa
Que o seu caminho está preparado
E sua escolha foi uma doce mesura

Para quem escreve sobre o folhedo
Que se lançou solitário ao caminho
Que anuncia que o outono vem vindo.

Autor: Henrique B. Lobato

Canção da vontade



Canto da vontade

Na primeira tentativa de iluminação
Ele foi varrido e chutado como cão
E assim fracassou na primeira viagem
Pois se irritou com distinta miragem.

Depois retentou alcançar a iluminação
Mas encontrou no caminho um leão
Que apareceu para cobrar a divida
Outrora feita com nobre força divina.

Tentou e tentou com muitos fracassos
Que não abalaram vontade de fogo e aço.
Pois mesmo depois de grandes cansaços

Novas viagens ele sempre empreendia
E por vezes subiu montanhas sem guia
Até que ascendeu à luz que não apagaria.

Autor: Henrique B. Lobato

Stela Mares



Stela Mares

É hora de se fazer outros nascimentos.
É preciso fazer abrigos para a chuva.
As mares ondulam os quadris
Para iniciar a próxima dança.
Ela é feita de linhas potentes
Veste fortes símbolos de fogo
Orquestrados pelo absoluto.
É ornamentada por esquadras
De nuvens e luzes.
Arcontes prostrados reverenciam.
Ela dança para saudar sua aurora,
Mesmo se a noite chega, não chora,
Apenas ora pela serenidade,
Pela luz que ilumina a cidade.

Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: amor embalado na rede

Canção do Obstinado



Cancão do Obstinado

Tenho cantado uma mensagem
Para os silfos levarem ao destino.
Pois já não escolho a paisagem
Que ilustrará o árduo caminho.

Tenho cantado um distinto amor
Que habita em cada linha tecida
Como a noite habita o trovador
Que errante anda em passo lúdico.

Me embriago de sonhos já vividos,
Entardecidos da presença da noite,
Neste manto no tecido de estrelas
Que guarnece o amor justo e forte.

Me embriago em minh'alma poida
Em várias partes, escuros pedaços
Das virtudes que não foram polidas
E se despertam em outros abraços.

Autor: Henrique B. Lobato

Lar de Irasóis



Lar de Irasóis

Sonhei com os primeiros raios de sol
E que você os capturava depois os tecia,
Tecia um aroma em ternura de cristal
Na paisagem da aurora onde você sorria.

Vamos guardar este manto de ternura
Para vesti-lo em tarde longe e fria
Este manto de tua dourada candura
Que eu te vi tecer com a luz do dia.

Ele será o nosso novo guarda chuva
Para as tardes nubladas desta cidade
E se a noite vier fazer da beleza turva

Teremos o sol a transmutar felicidade
Pois é tempo de amar e estar enamorado
E ter borboletas brincando no tornado.


Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede
Para a moça que treina suas borboletas no tornado.

Sua criança

                


               Sua criança

Há uma formula de fazer poesia
Com um laboratório esquisito
Onde se faz uma distinta música
Com a brisa da asa do mosquito.

Se ouve as cores em cada gosto
Sem deixar, nos pratos, restos.
Não há sobras, lixos ou esgoto
Que um poeta não mescle gestos.

De um olhar nostálgico de lagarto
Faz-se existência ao dinossauro.
Uma bola esquecida ao lado da pia
É a lua que cai para surgir o dia.

Acho que já nascemos artistas
E se deixa escapar na vida poesias.
Que se possa dizer na vida e caminho:
“Eu vejo a cor do som do passarinho.”


Autor: Henrique B. Lobato

Canto de auto anistia




Canto de auto anistia

Oh! Águas do rio sereno
Por onde vai o meu caminho?
Navego em meus passos.

Meu caminho por onde vai
Quando cai torrente de chuva?
Navego em meus passos.

Chuva torrente quando cai
Molhas as tristezas por onde vai.
Navego em meus passos.

Águas do rio feito de chuva
Molha de tristeza minha duvida.
Navego em meus passos.

Minha tristeza lúcida
Sanada é por teus abraços.
Navego em teus pássaros.


Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede

Cotidiano 352




Cotidiano 352

Nostalgia é comer insetos
                Da fábrica
     Em cores de sépia
Largados do espírito
Sobre a faca sega
                                De um rio
Garrafa branca
Balde pingado
                De goteiras passageiras
Sem esperança
                De espírito
                Despido
Garrafa branca
Em cores de sépia
Nostalgia é comer insetos
Sobre a faca cega

                                De um rio


Autor: Henrique B. Lobato

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Primeira rosa




Primeira rosa
            Esta rosa é verdadeira,
            Fui eu quem a plantei.
            Coloquei um galho verde
            Em meu jardim molhado,

            Todos os dias doava à ela
            Um pedaço do meu amor,
            Mesmo com céu nublado
            Reparti com ela o esplendor.

            Toquei para ela meu violino,
            Cantei a canção do peregrino
            E do amor que aqui se fez
            Em flor tornou o jardim feliz.

            Pois o intenso trabalho que fiz
            De plantar o silêncio que se diz
            Com a palavra dos teus olhos
            Valeu o perfume da flor do galho.


Autor: Henrique B. Lobato
Do livro: Amor embalado na rede
Para minha (des)orientadora.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fazedor de simbolos





Fazedor de símbolos

Ele não parou
De fabricar poemas novos.
Os sonhos não morrem.

Autor: Henrique B. Lobato

Com barco-a-vela para as Três Marias





          Com barco-a-vela para as Três Marias

          Hoje o mar chove nas três Marias
          E Sobre a delicada e singela vida
          Destas pessoas moradas de paz.
          Paz que o tempo molda em nós.

          Cada olhar é água de sol, chuva
          Que jorra de nós a vida inteira
          Sem se apiedar destas senhoras
          Que tão pouco tem à cair nas velas.

          E elas as vezes vão morar no céu
          De tantas eras, de tantas delas lá
          Que faz daquele coração o corcel
          Para a eternidade perene cavalgar.

          Por isto hoje como não noutro dia
          O mar chove sobre a singela vida.
          E a presença que tão alegrar-me-ia
          Foi num barco-a-vela às três Marias.

Autor: Henrique B. Lobato

   (Este poema é dedicado para a professora que me ensinou que só se pode crescer como pessoa com trabalho duro e muita dedicação, durante grande parte da minha infância o que para muitos era apenas uma professora de reforço para mim era a principal fonte de aprendizado, não apenas como aluno, mas também como pessoa.
 Hoje muitos alunos se despedem da nossa querida professora.)