quarta-feira, 20 de março de 2013

Um devaneio lúcido



 Um devaneio lúcido


Não faz sentido esse empreendimento.
Dá-se tanto valor ao que nada nos soma
E as vezes até deixa negativo o dividendo.
E coisa de pouco discernimento e honra.

Não faz sentido querer tanto uma miragem
Se cobrir de pluma e pano de fina linhagem
Mas pouca coragem de se auto-descobrir,
Mas pouca vontade de viver o agora e aqui.

Que bobagem se encher de facho para fora.
E quando se chegar a hora de lutar ou fugir?
A meia-noite do natal que te mostra outrora
O que eras e o que seras se assim proseguir.

Outro codigo de barra que eu já não preciso.
Outro que narra no onibus sua falta de juiso,
Pedindo um trocado que ninguém pode dar.
Até educado o coitado que até tenta ajudar.

Mas ele fala para uma assembleia de surdos
Que nem ao menos lhe deseja um bom-dia...
Alguns dão moedas pra mostrar seus burgos,
E enfim seguem e proseguem sua cega rotina.

Já passou da hora de tirar a poeira do tapete,
De descobrir nossos defeitos atrás da cortina.
É preciso dissecar, disscertar esse vil enfeite,
Esse defeito que a tanto tempo nos hipnotiza.

Seguimos alimentando uma falsa pespectiva
Sem perceber como é curta essa terrena vida.
Será que somos os donos do que temos posse?
Será que virtude é realmente igual a toda pose?


Autor: Henrique B.Lobato

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Noite de vigília




Noite de vigília

Por hoje espera, oh peregrino.
Pausa que a noite já vem vindo.
Invoca a luz ardil do patrulheiro,
Evoca os teus defeitos no espelho.


Por hoje espreita, oh peregrino.
Sente o Senhor que está contigo.
Silencia tua mente se ela canta.
Situa os passos de quem anda.


Por hoje enxerga, oh peregrino.
Não te engana com esperto hino
Na ilusão dos teus pensamentos,
No medo que dá o uivo do vento.


Levanta que a tua noite vem vindo,
Faz de ti mesmo o teu pior inimigo
Para assim apontar os teus defeitos
E enfim despertar neste mundo leito.

Autor: Henrique B. Lobato
Domini

Sem contar outono




Sem contar outono

Não há sentido em contar outro dia,
Em esperar abraçar-te em tarde fria.
Espero não contar o próximo outono,
Não quero temer tão indiferente sono.


Quero escutar do alvorecer a melodia
Que renova intensamente a minha vida,
Sem temer a perda, não sou real dono!
Sem temer da primavera um abandono.


Que besteira chorar tanto uma partida,
Como se fosse curar com choro a ferida.
Olhe pra cima e veja a tarde tão bonita,


Brilhe mais forte minha fada querida.
Não louve a morte com lágrima caída,
Pois isso é ofender com sal a sua vida.

Autor: Henrique B. Lobato

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Não para a letargia!





Não para a letargia!


Vou acender uma vela
Em meu templo interior.
O vento sai pela janela
De vidro o tempo inteiro.


O sono fica no chuveiro
De água fria para acordar;
O sonho sai do travesseiro
Bem ligeiro para realizar.


Eu vou buscar o despertar
De tão sublime consciência.
Vou entender e trabalhar.
Na morte da sonolência.


Desenfrascar a paciência
Para treinar e conceber
A divina parte da essência
E elevar o nível de ser.


Autor: Henrique B. Lobato.
Domini

Tempestade de Novembro





                 Tempestade de novembro

     Certa nuvem tentou avisar-me
     No canteiro de obras do vento:
     Que havia de vir a tempestade
     E por culpa traria o sofrimento.

     Porém o sol resplandecia no céu,
     O dia seguia sem vil e triste chuva.
     A curva do horizonte era meu véu
     E segui a via da vida de vista turva.

     Corri sem lei, voei sem gravidade.
     O caminho aind’era pleno e plano,
     Mas enfim chegou a tempestade
     Que ferozmente foi me arrastando.

     Traído fui por uma falsa amizade
     De um vil falso profeta e puritano.
     Mas é erro grave faltar a verdade
     E triste destino ele viu chegando.

     Foi preciso relembrar meus atos
     Sem reviver nenhum cadinho.
     Foi preciso dissertar sobre os fatos
     Sem demonstrar amor, carinho.

     Ver o que passou sem passar.
     Falar do que sentiu sem sentir.
     A semente do amor resolvi deixar,
     Sabendo que a amada iria partir.

     A matéria vil e vã haverá de passar
     E para transmutar e real ascender
     É preciso aprender o real Amar
     E por consequência amado ser.


Autor: Henrique B. Lobato
Domini

Sinal da Alvorada






 Sinal da alvorada.

  Ontem ao alvorecer Encontrei
  Um anjo de uma terra distante.
  Ele era nobre e justo como um rei,
  Porém já estava cansado, arfante.


  Pois um tal falso profeta arguto
  Há muito lhe bradava lorotas.
  E ele era trapaceiro, algoz, astuto,
  Sem perceber garfava suas galhofas.


  Observei tudo por tempo e minuto
  Querendo muito matar tal profeta.
  Só então percebi que sou diminuto
  Querendo pagá-lo a mesma moeda.


  O profeta tragava verba arrogância
  Ao pobre anjo naquela alvorada.
  E este mortal em sua ignorância
  Entendia muito pouco, quase nada.


  Pois este anjo estava no seu andar
  No continuar da santa caminhada.
  E o ignoto profeta no fútil postergar
  Em toda preguiça, medo e parada.


Autor: Henrique B. Lobato
  Domini

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A última nota no diário


A ultima nota no diário de John:

 Era uma noite fria de inverno em Londres, chovia como sempre e o cheiro de poluição e de esgoto perfumavam o ar, eu caminhava com meu sobretudo amarelo característico, e clamava maldizeres para aquela cidade.

 Ao chegar à porta do seu apartamento meu coração acelerou como se eu, homem feito, fosse novamente um adolescente chamando uma garota para sair pela primeira vez. Bati na porta três vezes e Body, seu cachorro me reconheceu.

 - Entre! – você gritou da janela do terceiro andar e a chuva fria que ferrava minha pele ficou para trás.
 Lá dentro a atmosfera era outra, era quase outro mundo, se não fosse a janela que você esqueceu aberta.
- Ola meu amor... – Você me abraçou e me beijou, senti seu coração que também batia acelerado e ressoava com o meu.

 Quando você me soltou eu caminhei até a janela e estendi os braços a fim de fechá-la, mas antes não pude deixar de notar a bela lua cheia e os sete gatos que cantavam desafinados lá fora, eles cantavam para a lua seu coro de saudade, protegidos da chuva pela varanda e pela sua irracionalidade, a tristeza própria daqueles tempos de guerra não os afetava.

 Fechei enfim a janela, deixando os gatos, a lua e a velha Londres para trás. Seu mundo era bem melhor, ele continha aquele amor, carinho e afeto que só as mulheres sabem demonstrar e eles preenchiam mais seu ambiente que os moveis e a sujeira de uma péssima dona de casa.

- Venha deitar-se comigo, está frio John.
- Tenho planos para amanhã, vamos sair. Quer passar as férias inteiras aqui dentro? – A chuva tiritando na janela completa a música de fundo.
- Oh querido como eu queria, mas chove muito lá fora e quem trabalha com a voz como eu não pode se dar ao luxo de adoecer. – Ela aponta para fora e depois me olha faceira como só ela sabia.
- Minha avó me contava a lenda de um dia de sol no inverno. – Ela sorriu e me chamou novamente gesticulando com a mão.
- Lenda... – Ela refletiu um minuto. - Esqueça isto e venha para a cama, está frio.

 Dentro do seu mundo e envolvido pelo seu carinho eu esqueço todo o sofrimento do mundo lá fora.

 Passamos a noite acordados disputando com os gatos quem fazia mais barulho, a vizinha de baixo deve ter batido duas ou três vezes com o cabo da vassoura, mas nós não ligamos. Fui dormir apenas as cinco e meia da manhã.

 No dia seguinte a lenda se tornou realidade e fez realmente um dia de sol, você me sacudia as quatro da tarde querendo que eu levanta-se, e se não fosse pelo convidativo sol lá de fora eu ficaria deitado como um recém defunto, mas me rendi a sua vontade e saímos para passear.

 Convidei-te para ir ao cinema, mas você queria fazer atividades ao ar livre, eu também queria sentir o sol depois de tanto tempo nublado, namoramos a tarde inteira no banco do Hyde Park, vimos o sol se por no horizonte, você disse que me ama, se recostou em meu ombro e ficamos em silêncio...

 Depois de algum tempo, não sei ao certo quanto, tentei falar contigo e você não respondeu, deduzi que estivesse dormindo e fiquei mais um pouco junto de ti e esperei mais, novamente tentei falar contigo e pegando tua mão percebi que esta estava fria. Gritei, chamei ajuda, te carreguei no colo e te levei para o hospital mais próximo.

 Lá me disseram que você estava morta, duvidei, como? Ela estava bem até agora a pouco.
 - O que ouve? – Perguntei.
- Câncer Senhor. – Responderam-me.

 Voltei para teu apartamento sob uma chuva fina que me foi fiel e companheira, a poluição e o barulho dos carros em meu lado estavam longe, eu havia embarcado no trem das lembranças sem pagar a passagem e meu corpo deixado para trás caminhou sozinho pelas calçadas úmidas da velha Londres.

 Ao entrar sem baterem teu apartamento, deparo-me com um ambiente frio e úmido, todo o carinho, amor e afeto que antes haviam aqui se foram. Teriam eles ido embora contigo para aqueles momentos eternos de que tanto você falava? Enquanto eu me questionava, encontrei na gaveta do teu criado mudo uma carta e um exame.

 Pouco entendi do exame, por isto resolvi ler a carta, que dizia:
 Querido John, fiquei sabendo nesta quinta que tinha câncer já em avançado estado, o medico explicou que eu teria no máximo mais alguns dias de vida, se você encontrou está carta é porque já não estou viva, mas sempre estaremos juntos, naqueles poucos momentos eternos.
                                                                                                          Com amor
                                                                                                                      Sara

Quando terminei de ler a carta o vento frio soprou pela janela, arrepiando-me até a ponta do pé e as cortinas brancas dançaram em par, lá fora os gatos pretos cantavam para a lua o seu coro de saudade, então eu dobrei a carta, coloquei novamente no envelope e escrevi está nota em meu diário, está que será a ultima nota antes que eu vá cantar com os gatos pretos da sua varanda.