Sou invisível, posso andar pelas ruas fantasiado de lixo.
Sou invisível, posso dormir por ai em qualquer lugar.
Sou invisível, ninguém se importa vou migrar novamente.
Sou invisível, meu governo deveria cuidar de mim, olhar por mim.
Sou invisível, esse é um país de todos, menos alguns. Existem alguns que valem menos que papel, estou entre eles agora.
Sou invisível, e hoje me olhei no espelho, não vi ninguém, estou sumindo... Algum dia eu vou acordar e ver que não existo.
Sou invisível, mas algumas raras pessoas de bom coração me vêem e me dão comida, dinheiro e roupa as vezes ate carinho. Ter que depender disto faz eu me sentir como uma peça sobrando no sistema. Eu sou uma peça sobrando no sistema. Mas tenho direito de viver.
Sou Invisível e ninguém se importa, não tenho nome nem assinatura nem direito a entrar onde é proibido animais.
Saber que ninguém se importa e saber que o dinheiro que todos me deram foi roubado me deixa sem esperança pro futuro.
Saber que se eu morrer hoje não fará diferença nenhuma pra ninguém me deixa muito triste.
Como poderia fazer diferença se sou invisível, as pessoas passam por mim e ninguém me vê.
Estendo a mão pra pedir vida e ninguém me vê, por favor, se livrem da hipnose e me vejam no meio do lixo, no meio desssa droga, no meio da droga!
O lixo é o único que me entende, ele é como eu, sem família, sem amigos, sem nada.
Só nele encontro alimento e só nele encontro calor e abrigo.
Como todos podem achar que as coisas estão certas, que tudo isto é normal, eles não podem ver? Não podem sentir? A todo o momento pessoas passam por pessoas, e a todo o momento alguém se arrasta nas sombras e nos cantos de calçadas. Onde fica o dinheiro que damos nos impostos para ajudá-las?
O dia nasce e tudo se inicia novamente, o pão de cada dia é incerto e que alternativa eu tenho a não ser ter fé?
Ter fé de que um dia alguém decida mudar o que todo mundo acha certo, normal e banal.
Sou um ser humano e tenho direitos mesmo não sabendo quais são.
Que raiva eu tenho de tudo por não ter chance de melhorar.
Eu não sou daqui? Não sou dessa terra que dizem ser de todos? Não tenho escolha!
O que eu tenho a perder a não ser a vida?
Que por enquanto não vale nem um bom dia de ninguém.
O que uma pessoa que não tem nada tem a perder?
Continuem comprando e não se importem comigo,
Pois no fundo o lixo que eu chamo de vida vai ser reciclado em outro alguém.
E diz amém quem não incherga, quem fecha os olhos e se torna seu próprio inimigo.
Afinal eu sou literalmente o resto da sociedade de hoje morrando num abrigo.
Autor: Henrique B. Lobato

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