quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Biografia moderna



 Biografia moderna

Filha da Puta
Nasceu!
Será que sou eu?
Nem sei...

Des de pequeno
João tecia histórias
Gravadas só no vento,
Pois as suas memorias

Foram outras, roubadas.
Nada restou daquele tempo.
Só as rugas, mão calejadas
Da roça, de cachaça e trampo.

Eles querem me castrar!
Querem foder minhas idéias!
Querem bater, me torturar!
Querem roubar minhas moedas!

Eu já cansei de trabalhar!
Hoje eu pensei e nada vivi.
Eu já nem sei o que é amar!
E procurei... Amor não vi.

Filha da puta
Morreu!
Será que sou eu?
Nem sei...


Autor; Henrique B. Lobato

Obs: Este texto foi originalmente produzido para o evento "Laranja Mecânica" promovido e divulgado pelos alunos de letras do segundo semestre de 2013.

Canção do delírio


Canção do delírio

Gosto de brincar com os sons, vozes
De largar mão da pretensão do agora.
Outras horas para letras tão velozes
Que não o agora, tão breve lá fora.

O vento faz dançar as versas letras
Em corações tão distantes que sumo.
Ouço desses lábios o raro pedido:
Vamos abraçar juntos o silêncio?

Escondo-me na escuridão, oculto.
Para não limitar as livres palavras
Que escorem no vento ao ouvido
Sonorizando as raras notas sentidas.

Que fiquem guardadas bem no íntimo
De quem as escolhe para levar no bolso.
Pois o humano tempo no existir é ínfimo
E o destino que achamos conhecer é falso.

Autor: Henrique B. Lobato

Noite de prece e procissão



Noite de prece e procissão

Acendem-se pequenos pontos, Ave-Maria
Começa a andar pela rua que dormia.
E as preces passeiam pelos olhos sós
Como as estrelas passeiam em nós.

E as nuvem apagam as suas luzes,
Cobrem as estrelas, mergulham a lua
Na mesma tristeza de tantas vezes,
Das vozes velosas que choram na rua.

Não sei para onde segue este cortejo
Que recorta um pedaço do purgatório.
Estes anjos com um sonoro desejo
De levar a piedade com o oratório.

E as velas seguem às suas casas,
às janelas e às cortinas do céu.
No meu íntimo acendem centelhas
Do divino silêncio que se perdeu.

Autor: Henrique B. Lobato

Raios noturnos


Raios noturnos

Para onde vão os teus raios de sol
Quando não me iluminam à noite?
A curva das cores em teu farol
Tocam em mim sempre distante.

Mas quando cresce tua luz boreal
Teus raios curvam-se à minha volta,
E então somos fantasia sem final,
Sem temer o findar desta história.

Luz explode o céu em dois corpos
Disforme e desentendidos do medo
Que espreita o sentir de outros tempos,
Onde a nuvem chove em segredo.

Eu vejo um caminho para o futuro,
Como se a noite se fizesse branda.
Assim a pulsão maior do meu cárdio
É amar e amado ser nesta ciranda.

Esta aurora entorpece os sentidos
Que temos sobre deuses e destino.
E quando acordo pela noite no rio
O meu corpo dita o ritmo do vazio.

As ondas recuam na areia da praia
Os dedos tatuam na pele a incerteza
De um compromisso para toda vida,
E o rio leva a luz com a correnteza.

Autor: Henrique B. Lobato

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Caminho de retorno



Caminho de retorno

Agora te quero um pouco distante
Como as lendas, constelações antigas
De um infinito suave e constante
Que cabe nas histórias perdidas.

Outra vez se abrem os passos falsos
E incertos do caminho de retorno.
Mas aceito a experiência de outros
Destinos, de outras folhas de outono.                                                       

Outrora de solenes segundos, minutos
Traçados como uma nova obra de arte
De muitas cenas com conflituosos atos
Moldados com o efêmero da morte.

E assim guardar a velha lembrança
Nas pegadas das estradas percorridas,
Sem a tristeza da dor de uma criança,
Mas com a forte de lutas já vencidas.


Autor: Henrique B. Lobato

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Os motivos de um livro.



Os motivos de um livro.

Aqui não há serenas páginas
de existência ou imortalidade.
Podem namorar nestas águas
Amores, temores e saudade.

Aqui não há o delírio da verdade
Contida somente no denso vazio.
Isto não é um produto de arte.
Só o misterioso silêncio do rio.

Aqui não é local pra encontros,
A busca está noutras veredas.
A porta está além das vendas.
Na noite, morada de monstros.

Não há heróis vivos neste verso
E nem canções de uma aventura.
O som, talvez o caminho interno
Façam passagem nesta iluminura.



Autor: Henrique B. Lobato

Iluminura Solitária




   Iluminura solitária

A noite brame com o sentir solitário.
Brada com uma paixão inexorável
Elevando a vontade involuntária
De fuga, de medo e inexistência.

E cada estrela pinta um quadro só
Com iluminura para a arte da alma.
Cada átomo do meu corpo em pó
Desatina a dor que prende a calma.

As nuvens cobrem os cílios da lua.
O poste vaga-lume ilumina o nada.
O silêncio vaga lúgubre pela rua
Que sonha em não ser estrada.

É a imanência das ideias sóbrias,
Quando a noite parece solidaria,
Que faz-nos perceber as sombras
Em uma rara iluminura solitária.


Autor: Henrique B. Lobato