O casal parado na rua
Hoje enquanto caminhava na rua, passei por uma cena que me
deixou um pouco perturbado.
Eu estava na avenida
Nazaré, uma avenida movimentada de Belém, e ainda iluminava há poucas horas a
luz do sol. Como sempre, haviam pessoas muito apressadas correndo de um lado
para o outro, haviam carros buzinando e tentando estacionar na beira da pista,
haviam apitos de guarda de transito e de flanelinhas, mas essas cenas eram
comuns.
Porém, em meio a
essas engrenagens da maquina do sistema, tinham duas pessoas sentadas na
calçada, um jovem casal, o rapaz aparentava ter vinte e poucos anos, mesmo com
o rosto sujo pela barba bagunçada, usava uma calça jeans e camiseta amarrotada
sem estampa, sua mão esquerda descansava sobre uma mochila marrom muito velha,
que me passou um sentimento forte de lealdade. Além disso, uma moça um pouco
mais jovem do que o rapaz descansava ao seu lado, ela segurava forte a mão
direita dele, como se o usasse de apoio para enfrentar o mundo, tal como ele
usava a mochila.
Na medida em que, eu
me concentrava no casal, o barulho e o caos daquela manhã iam ficando para
trás, se tornando uma pintura moderna desforme, como se estivesse lá apenas
para enaltecer a arte principal.
Embora, aquele casal sentado
a beira de um casarão antigo e abandonado estivesse sujo, eles não aparentavam
serem pedintes. Então o que faziam ali parados? Por que não seguiam sua vida? Por
que estavam ali jogados e não namorando em algum lugar mais discreto e confortável?
Eu estava pensando como um cavalo do sistema... Não! O que realmente é vida?
Essa rotina de maquina de produção? Esse papel já muitas vezes repetido e sem
falas novas?
Também reparei no
olhar daquele casal, um olhar triste, reflexivo, cheio de medos e incerteza.
Porém, um olhar vivo, cheio de contraste e brilho.
Quando vemos alguém
olhar para o alto por instinto também olhamos, segui caminhando sozinho naquela
rua barulhenta, imerso em meus pensamentos, e enquanto refletia sobre todas
estas coisas, sobre a possível história daquele casal, sobre a direção ou a
falta de direção do olhar deles, parei... Olhei em volta e vi o que eles
estavam vendo... Uma coisa exótica, mística, inusitada para a maioria das pessoas daquela
multidão a minha volta:
Estou vivo! Como é
bela esta manhã!
Autor: Henrique B.
Lobato

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