sábado, 4 de maio de 2013

O casal parado na rua




O casal parado na rua

 Hoje enquanto caminhava na rua, passei por uma cena que me deixou um pouco perturbado.

 Eu estava na avenida Nazaré, uma avenida movimentada de Belém, e ainda iluminava há poucas horas a luz do sol. Como sempre, haviam pessoas muito apressadas correndo de um lado para o outro, haviam carros buzinando e tentando estacionar na beira da pista, haviam apitos de guarda de transito e de flanelinhas, mas essas cenas eram comuns.

 Porém, em meio a essas engrenagens da maquina do sistema, tinham duas pessoas sentadas na calçada, um jovem casal, o rapaz aparentava ter vinte e poucos anos, mesmo com o rosto sujo pela barba bagunçada, usava uma calça jeans e camiseta amarrotada sem estampa, sua mão esquerda descansava sobre uma mochila marrom muito velha, que me passou um sentimento forte de lealdade. Além disso, uma moça um pouco mais jovem do que o rapaz descansava ao seu lado, ela segurava forte a mão direita dele, como se o usasse de apoio para enfrentar o mundo, tal como ele usava a mochila.

 Na medida em que, eu me concentrava no casal, o barulho e o caos daquela manhã iam ficando para trás, se tornando uma pintura moderna desforme, como se estivesse lá apenas para enaltecer a arte principal.

 Embora, aquele casal sentado a beira de um casarão antigo e abandonado estivesse sujo, eles não aparentavam serem pedintes. Então o que faziam ali parados? Por que não seguiam sua vida? Por que estavam ali jogados e não namorando em algum lugar mais discreto e confortável? Eu estava pensando como um cavalo do sistema... Não! O que realmente é vida? Essa rotina de maquina de produção? Esse papel já muitas vezes repetido e sem falas novas?

 Também reparei no olhar daquele casal, um olhar triste, reflexivo, cheio de medos e incerteza. Porém, um olhar vivo, cheio de contraste e brilho.

 Quando vemos alguém olhar para o alto por instinto também olhamos, segui caminhando sozinho naquela rua barulhenta, imerso em meus pensamentos, e enquanto refletia sobre todas estas coisas, sobre a possível história daquele casal, sobre a direção ou a falta de direção do olhar deles, parei... Olhei em volta e vi o que eles estavam vendo... Uma coisa exótica, mística, inusitada para a maioria das pessoas daquela multidão a minha volta:
 Estou vivo! Como é bela esta manhã!


 Autor: Henrique B. Lobato


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